quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A CASA DE DONA TINOCA

Minha Mãe "Marlene " faleceu dia 25 de fevereiro de 2010 aos 64 anos por causa de câncer generalizado No meio da minha imensa dor recebi esta carta da minha tia , irmã mais nova da minha mãe, e quero compartilhar.
               A CASA DE DONA TINOCA
  Valéria, como você já sabe, quando eu era criança sua mãe, Marlene, era responsável por mim. Eu tinha mais ou menos uns cinco anos quando ela me falou pela primeira vez de Dona Tinoca. Eu havia chorado muito a perda de um gatinho  e adormeci muito triste. Quando acordei, ela, com aquele jeito de ter sempre uma novidade, me disse, toda satisfeita que meu gatinho não havia morrido. Enquanto eu dormia, dona Tinoca havia nos visitado e tinha dito que meu gato estava lá, na casa dela. Só que não poderia mais devolvê-lo porque lá ele aprendera a falar e agora era amigo de todos os outros que a gente pensava que tinham morrido e viviam lá, satisfeitos da vida.  Se eu fosse obediente e parasse de lamentar a perda, ela me levaria até lá. Dona Tinoca morava afastado da cidade. Era só pegar uma estrada de chão batido, ladeada de coqueiros e flores brancas, subir uma pequena colina , atravessar um riacho bem limpinho, calçado de pedras,  passar uma ponte de madeira e pronto, lá estaria a casa de d. Tinoca.  Era uma casinha branca, bem limpinha, com uma cozinha bem grande onde havia sempre um tacho de doce no fogão de lenha. Toda vez que Marlene ia lá, ela servia arroz com feijão. O arroz era bem soltinho e o feijão bem vermelhinho. A mistura era sempre torresmo bem sequinho e as verduras vinham direto da horta que Marlene mesmo ajudava  colher. O quintal era enorme, cheio de flores na frente e frutas atraz. A diferença do nosso quintal, que também era grande naquela época, é que no nosso havia frutas de sempre: laranja, banana, goiaba, etc. Lá na casa de d. Tinoca não. Além das frutas que a gente conhecia, havia as que a gente sabia que existia mas não conhecia o pé como:maçãs,  figos, cerejas, franboesas, etc.  O varal de d. Tinoca estava sempre cheio de roupas brancas, muito bem lavadas e ela conversava com Marlene sentada à sombra de uma parreira cujas uvas estavam sempre ao alcance da mão.  Dentro da casa, o vento circulava livremente e tudo era muito limpo, cheirando a flor de laranjeira.  Havia um armário cheio de compotas de frutas que a gente podia comer a vontade. Dona Tinoca sabia fazer frutas cristalizadas (porque eu gostava muito).  E assim, o tempo foi passando e, sempre que era conveniente ela me falava de Dona Tinoca. Se Marlene  sumisse e eu perguntava depois onde estivera, ela dizia que tinha ido à casa de D. Tinoca.  Sempre que eu não estava em casa, perdia, D. Tinoca tinha vindo visitar.  Se ao chegar da escola eu encontrasse algum doce diferente ou um queijo melhor, era dona Tinoca quem tinha feito. As vezes ela saía comigo prometendo me levar, mas, nunca dava certo. Depois de caminhar quase até o final da cidade, tínhamos que voltar por um motivo qualquer e a vida foi passando.  Ela arrancava de mim promessas de não  falar para meus outros irmãos sobre Dona Tinoca porque eles não eram bem-vindos lá. Só eu. Ela. Papai e mamãe. Imagine aquele tanto de moleques mal educados bagunçando a casa de Dona Tinoca !. Nunca ! ela não iria permitir, embora a tal senhora fosse muito boazinha e compreensiva.  Quando sua mãe ficou adolescente, a história mudou. Dona Tinoca tinha dois filhos muito lindos e bem educados que moravam no exterior e um deles se apaixonou por ela. Foi o fim de Dona Tinoca para mim. Nunca mais ela falou no assunto, talvez por sentir que eu estava crescendo e  finalmente percebendo que Dona Tinoca era apenas um produto de sua imaginação . Mas, já era tarde. Dona Tinoca me fez viajar o Brasil todo tentando avistar a tal estrada que levaria à sua casa. Comi muito doce imaginando que ela os tinha feito. Uma vez no exterior, chorei ao ver um pé de maçã,  de pêra, parreiras carregadas de uvas de todas as cores. Não eram como as que sua mãe havia me dito. Antes, eu já os havia imaginado no quintal de Dona Tinoca. Agora, que Marlene se foi, sei que você está sofrendo e embora não saiba quanto anos você tem, eu  digo com certeza: Não chore, ela está na casa de Dona Tinoca. Como eu não sei o caminho, lembro que ela  prometeu me levar lá, seria apenas eu, ela, papai e mamãe, porque vocês não existiam naquela época. Já que a Dulce também sumiu, acredito que pode ter sido aberta uma exceção e ela também foi aceita lá.
          Tchau, nos veremos um dia na cada de Dona Tinoca !
                            Um abraço, tia Sinha.

10 comentários:

  1. Que carta linda. Sua mãe deve ter sido uma pessoa muito especial. É muito bom ser confortado por alguém, e ela com todo jeitinho fez isso. Me sentiria muito honrada se tivesse tido a oportunidade de conhecer sua mãe. Mais quem sabe um dia todos nós nos veremos na casa da D. Tinoca.

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  2. Que legal...
    Adorei o texto de sua Tia...
    Também perdia a minha mãe de câncer(na laringe), há mais de 9 meses(23 de outubro de 2009).

    Ps: Mamãe Daisy só fez uma viagem... Pois ela está viva, no outro lado.

    Um abraço e parabnéns pelo blog e pelo texto,
    Isabela Guedes.

    Vc. é jornalista? Desculpa pela pergunta, mas eu sou...
    Caso vc queira entrar em contato, os meus blogs são:
    http://blogdoradiocarioca.blogspot.com

    e
    http://blogdoradiocariocanacopa.blogspot.com

    E o meu email é: mariaisabelaguedes@gmail.com

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  3. Muito emocionante! Uma bela fábula que daria belas histórias, hein?
    Gostei muito!
    Beijos!

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  4. Na foto esta minha Mãe(Marlene) no centro e meus irmãos...estou adorando os comentários.

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  5. Pessoas especias merecem cartas especiais. Isso é lindo D+!
    Théo Iemma
    theo.iemma@terra.com.br

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  6. Com certeza, estaremos todos na casa da D. Tinoca algum dia. E será um dia muito feliz prá todos nós. Mataremos a saudade absurda que ficou.

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  7. QUE LINDO!...
    AMEI!...
    SÓ PODERIA VIR DA SENHORA TIA.!...
    por muitas vezes eu viajei em historias contadas pela tia Dulce e sonhei com as historias de minha mãe ,esse e um dom que todos vocês tem e poetíco e divino, amo vocês fico orgulhosa de poder ler uma coisa tão linda choro de saudades.
    talvez por que um dia minha tia me disse eu te amo! e eu nunca tinha ouvido isso com tanta cinceridade.. talvez tenha sido pela primeira vez que alguém realmente olhou para mim.e me disse a verdade.

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  8. Meu Deus!chorei;agora sei que vamos nos encontrar um dia e ficaremos juntos eternamente,nesse lindo quintal com o Sr Jesus.

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Tia muito linda a carta. Tomara que os netos também possam ir para a casa da Dona Tinoca, ai poderemos encontrar a Vó Marlene. Saudades dela, das historias que ela contava de quando era criança. Saudades Saudadesss.
    Nunca pensei que fosse tão dificil perde-la, penso nela todos os dias, queria ter mais tempo pra ficar com ela, queria que meus filhos ouvissem as historias que ela contava, e pudessem ter o prazer de dar um abraço nela e ganhar um enorme sorriso.

    Thalita Itabaiana

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